"No caso do Homem, o qual é a Forma culminante da Natureza Produzida, há também uma racionalidade própria. A ética de Goethe não tem qualquer significação religiosa no sentido cristão desse termo. É uma ética racional que aparece como exigência da Natureza e não como lei de um Deus extra-mundano. Paradoxalmente, os resultados desta filosofia moral acabam por ficar surpreendentemente próximos do Cristianismo.
Essa Racionalidade que para ele se traduz em imperativos éticos tem de sobrepor-se aos impulsos naturais que, no homem, se fazem sentir sob a forma do Desejo e da Paixão. Note-se que esses impulsos são em si mesmo necessários sagrados e racionais, visto que só eles proporcionam a energia para agir e as apetências profundas que, uma vez satisfeitas, oferecem ao ser humano sublimes momentos de felicidade e êxtase. Mas, para a visão goethiana, não é menos certo que o nível de Racionalidade do Desejo é inferior ao nível da Racionalidade dos Imperativos Éticos. A transgressão do imperativo não conduz a uma condenação eterna. Goethe é um espírito panteísta: a Natureza é a única realidade. A transgressão apenas conduz à negatividade que o destrói a si mesmo e a todos os que se lhe deparam no caminho. Trata-se aqui do conflito de duas Racionalidades.
Tudo é racional no seio do Todo. Mas cada plano da realidade tem a sua racionalidade específica e hierarquizada: os planos inferiores não podem impor a sua lei aos planos superiores sob pena da Ordem Natural Eterna ser perturbada.
Para Goethe, se as "afinidades electivas" (as inclinações amorosas) são indubitavelmente algo de profundamente racional, não é menos certo que essa sua racionalidade é inferior à racionalidade daquelas instituições humanas que, pelo facto de a sua essência ser radicalmente funcional no seio do Todo, estão na mesma direcção em que se desenvolve o Dinamismo Natureza-Deus. Tal é o caso da instituição do matrimónio monogâmico, o qual se baseia na Fidelidade que serve essencialmente a Vida e o seu desabrochar. O matrimónio é mais universal na sua essência, finalidade e função."
Afonso Maria Teixeira da Mota in "Goethe Máximas e Reflexões"
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