quinta-feira, 2 de junho de 2011

O Panteísmo de Goethe (parte III)

"No caso do Homem, o qual é a Forma culminante da Natureza Produzida, há também uma racionalidade própria. A ética de Goethe não tem qualquer significação religiosa no sentido cristão desse termo. É uma ética racional que aparece como exigência da Natureza e não como lei de um Deus extra-mundano. Paradoxalmente, os resultados desta filosofia moral acabam por ficar surpreendentemente próximos do Cristianismo.
Essa Racionalidade que para ele se traduz em imperativos éticos tem de sobrepor-se aos impulsos naturais que, no homem, se fazem sentir sob a forma do Desejo e da Paixão. Note-se que esses impulsos são em si mesmo necessários sagrados e racionais, visto que só eles proporcionam a energia para agir e as apetências profundas que, uma vez satisfeitas, oferecem ao ser humano sublimes momentos de felicidade e êxtase. Mas, para a visão goethiana, não é menos certo que o nível de Racionalidade do Desejo é inferior ao nível da Racionalidade dos Imperativos Éticos. A transgressão do imperativo não conduz a uma condenação eterna. Goethe é um espírito panteísta: a Natureza é a única realidade. A transgressão apenas conduz à negatividade que o destrói a si mesmo e a todos os que se lhe deparam no caminho. Trata-se aqui do conflito de duas Racionalidades.
Tudo é racional no seio do Todo. Mas cada plano da realidade tem a sua racionalidade específica e hierarquizada: os planos inferiores não podem impor a sua lei aos planos superiores sob pena da Ordem Natural Eterna ser perturbada.
Para Goethe, se as "afinidades electivas" (as inclinações amorosas) são indubitavelmente algo de profundamente racional, não é menos certo que essa sua racionalidade é inferior à racionalidade daquelas instituições humanas que, pelo facto de a sua essência ser radicalmente funcional no seio do Todo, estão na mesma direcção em que se desenvolve o Dinamismo Natureza-Deus. Tal é o caso da instituição do matrimónio monogâmico, o qual se baseia na Fidelidade que serve essencialmente a Vida e o seu desabrochar. O matrimónio é mais universal na sua essência, finalidade e função."

Afonso Maria Teixeira da Mota in "Goethe Máximas e Reflexões"

O Panteísmo de Goethe (parte II)

"O homem superior é, pois, o homem da Razão e os homens da razão são para Goethe essencialmente o Artista, o Cientista e o Grande Homem de Acção (um Frederico II da Prússia ou um Napoleão Bonaparte).
O Artista é aquele cujo espírito é sensível ao esplendor da harmonia eterna. Esse esplendor é a Beleza, e a função do Artista é fixar o Belo na palavra, no mármore, nas cores, no som a fim de que o Absoluto se manifeste em obras acessíveis ao comum dos espíritos mortais, possibilitando-lhes também a elevação ao Humano.
O Cientista é aquele que busca as leis universais, eternas, imutáveis que derivam do facto de cada ente ser um especimen de uma Forma-Função do Todo. O Cientista, quando não se deixa encadear pelas suas descobertas isoladas, mas busca nelas a Unidade Universal que as determina, dispõe de uma posição privilegiada para apreender a realidade na perspectiva do Eterno e assim possibilitar aos seus semelhantes uma igual Humanização.
Por sua vez, o Grande Homem de Acção é aquele que, no âmbito socio-político é capaz de perceber o que está caduco, que sabe utilizar os meios disponíveis com flexibilidade e audácia, para moldar as estruturas de convivência social e erguer o indivíduo isolado ao Universalmente Humano. Este Homem sabe descobrir o modo como os ingredientes das diversas situações históricas, que se vão apresentando na sua particularidade temporal, podem ser mobilizados para servir um processo de transformação que visa superar tudo o que é des-humano, isto é, particularista, fechado, isolado, brutal, caduco ou bárbaro. O Grande Homem de Acção não é o que pretende vergar pela força as situações históricas aos princípios que tem na cabeça; é antes aquele que possui a faculdade inata de espremer das situações concretas o que elas contêm de Universalizável, para instaurar e aprofundar o Humano."

O Panteísmo de Goethe

"Para Goethe-Espinoza o pensamento fundamental é que a Natureza é Deus, embora a inversa não seja a verdadeira (Deus não é somente a Natureza!). A Natureza não foi criada por Deus: ela é uma das infinitas dimensões do ser de Deus, um dos infinitos atributos eternos do Absoluto Divino, dos quais o homem conhece precisamente dois, a Natureza e o Pensamento. A Natureza é portanto o Absoluto Divino enquanto exteriorizado no espaço-tempo e, o homem, como ser natural, é assim um modo da Divindade.
A outra dimensão do Absoluto que nos é acessível é o Pensamento. Mas não se trata aqui de um pensamento consciente: trata-se apenas da Racionalidade imanente ao mundo natural, à qual obedece no todo e nas partes a Natureza-Deus. É no homem que essa Racionalidade se torna consciência.
Goethe distingue essa elevação à Razão do Senso Comum ou do Entendimento. Enquanto que este último se detém nas particularidades múltiplas do quotidiano ou nos casos isolados, a Razão ascende ao Todo e consegue captar, por detrás da multiplicidade particularizada, a Universalidade Eterna."

Introdução

Frei Dionísio abriu-me as portas da sua belíssima biblioteca. Em troca, pediu-me apenas uma ajuda ocasional nos seus trabalhos de cultura.
Das leituras realizadas no seu belo horto, à sombra de uma árvore ou junto ao pequeno regato, aqui deixo alguns excertos.